segunda-feira, 25 de julho de 2016

Em São José, cerca de 400 pessoas aguardam na fila de adoção (Reprodução)

25 de Julho de 2016

Filhos de coração e pais cheios de amor. A história de adoção do casal joseense Cínthia Amoras e Marcelo Guadagnin, 38 e 40 anos respectivamente, teve início ainda durante o namoro, quando os dois sentiam o desejo de serem pais e montarem uma família. O exemplo de tias que chegaram a adotar também fomentou esse desejo e decidiram partir para esse grande gesto de amor: a adoção.

Ela conta que desde a juventude teve a vontade de ser mãe adotiva, o que foi acompanhado pelo companheiro. O casal formalizou a união em 2005. "Desde a época do namoro - estamos juntos há 23 anos, casados há 10 - conversávamos sobre família. Assim o desejo de ter filhos adotivos passou a ser dele também. A adoção sempre foi a primeira opção. Talvez tentássemos uma gravidez também, mas concordamos em adotar primeiro (ainda pensamos em engravidar, quem sabe?). Passamos por muita coisa juntos, toda a fase de estudos, faculdade, início da vida profissional, ter a nossa casa...eram algumas etapas que queríamos concluir antes de ter filhos. Porque ter uma família sempre foi nosso plano. Estruturamos toda a nossa vida nesse sentido".

Após dois anos casados, ambos decidiram tomar uma atitude em relação à adoção. O desejo do casal sempre foi a adoção tardia, de forma planejada para o acolhimento dos filhos. "Tivemos tempo de elaborar a ideia da adoção tardia, quer dizer, adotar crianças maiores em vez de bebês. Sentimos que fazia mais sentido. Alguns (poucos) amigos e familiares se preocuparam conosco, pois seria um desafio maior ter que lidar com uma história pregressa. Mas sentíamos que deveria ser assim, crianças maiores, de preferência irmãos. Essa seria a nossa família. Foi com essa certeza e convicção que conquistamos a confiança e o apoio de todos. Levou mais dois anos entre a primeira vez que fomos à Vara da Infância e a conclusão do processo.

O setor técnico dessa Vara tem poucos profissionais para a demanda de toda a comarca de São José dos Campos. Isso atrasa o processo. Fizemos todas as entrevistas, fomos visitados em casa, levantamos mil documentos e declarações, preenchemos um monte de papéis. É uma "gestação" longa e burocrática", afirma.

Após dois anos de espera na "fila" de pretendentes para adoção, Cínthia e Marcelo receberam a ligação mais esperada de suas vidas. Durante o processo, o casal não indicou preferências em relação a cor ou sexo, apenas indicaram a idade máxima em dez anos e indicaram a vontade pela adoção de irmãos. "Em 2009 recebemos a tão esperada ligação. Finalmente pudemos conhecer as crianças que receberíamos nas nossas vidas e corações: Stephani, 11 anos e Ludmilla, 6 anos. Foi arrebatador! Você se descobre capaz de sentir emoções jamais imaginadas!".

No primeiro contato, Cínthia comenta que surgiu um amor incondicional pelas meninas. As duas irmãs começaram a frequentar a casa dos futuros papais aos finais de semana. A partir daí, Cínthia e Marcelo já estavam convictos: "fomos feitos uns para os outros".

"Ali, diante dos nossos olhos, estavam duas meninas encantadoras, que traziam no olhar uma beleza e uma força impressionantes! Crescia dentro de mim um medo imenso diante da responsabilidade de conquistar esses dois corações. Em meio a tantos medos e incertezas encontramos uma verdade irrefutável: a certeza de que fomos feitos uns para os outros. E que não poderíamos mais viver separados. Passamos a trazê-las para casa todos os fins de semana e visitávamos no abrigo todos os demais dias. Nossas filhas vieram para casa definitivamente em um mês. Um período considerado curto para alguns, mas para nós quatro já havia sido longo demais. Tivemos que adequar rotinas e trajetos para a nossa nova realidade", explica.

Cínthia conta que o apoio da família foi fundamental para o processo de adaptação. "O apoio da família foi fundamental, especialmente nessa fase de adaptação. É um período difícil, onde emergem os medos, especialmente de rejeição, e somos testados a todo o momento. Também era muita coisa nova para elas. Foram festas de boas-vindas, repletas de novos parentes e amigos, roupas novas, brinquedos e livros que nunca tiveram, lugares nunca antes visitados".

O processo de destituição, ou seja, desligamento oficial da família de origem, ocorre em seis meses. "Construímos laços muito fortes em pouco tempo. Em seis meses foi concluído o processo de destituição; após mais seis meses saiu a documentação definitiva da adoção, onde elas receberam os nossos nomes e sobrenomes na certidão de nascimento. Foi um momento marcante para todos nós. Hoje, além de estudar, estimulamos que realizem atividades diversas (culturais e esportivas) durante a semana. Nos finais de semana gostamos de fazer coisas juntos, mesmo que seja ficar em casa. Curtimos muito o nosso ninho. Fazemos questão de festejar cada aniversário, pois são duas guerreiras que sabem superar as dificuldades, valorizam a família e os amigos e acreditam na felicidade. Dizemos sempre a elas que são a realização do nosso maior sonho. Temos uma admiração infinita pela força e doçura delas. Sentimo-nos honrados por ser dignos do amor delas, por nos aceitarem e nos amarem como seus pais", relata.

Para a mãe, a pessoa que se submete à adoção precisa estar preparada para se doar integralmente. "Adotar não é ‘boa ação’. Trata-se de vidas, da formação de uma família. Trata-se de se dispor a amar incondicionalmente alguém que carrega uma bagagem de vida, muitas vezes dolorosa. Você tem que saber que vai receber na sua vida um coração com cicatrizes. E que essas dores passarão a ser suas também. Por isso é necessário estar disposto, com o coração aberto e repleto de amor. Mas é importante saber que todo amor cultivado floresce. E floresce com uma beleza surpreendente. A pessoa que se permite viver essa experiência descobre um tipo de amor sublime, inexplicável, infinito e sem igual", completa.

As irmãs, Stephani e Ludmilla, destacam que não sentem diferença por serem adotadas e afirmam que o amor está acima de tudo. "É normal ter uma família. Não é só porque fomos adotadas que a nossa família é diferente de qualquer outra. Somos uma família como qualquer outra. Com ela me sinto protegida", diz Stephani, 11 anos, que pretende fazer faculdade de Direito. "Me sinto acolhida. É bom saber que você pode contar com a família inteira. Mesmo que você tenha ideias ou opiniões diferentes, eles sempre estarão comigo porque me amam", conta Ludmilla, 6 anos, que quer ser atriz para levar alegria para as pessoas.

Dados

Em São José dos Campos, cerca de 400 pessoas aguardam na fila de adoção. Jacareí possui, atualmente, 36 pretendentes segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo. Lorena aparece com 18 pessoas. Guaratinguetá figura com 35 pessoas. Taubaté, até o fim do ano passado, estava com 97 pretendentes cadastrados. Em Caraguatatuba, no ano de 2016, não houve nenhuma habilitação até o momento. Aparecida conta com cinco casais cadastrados. A maioria dos pretendentes são casais que estão no aguardo da adoção.

A adoção é um último passo. Há diversas tentativas do Conselho Tutelar e da Vara da Infância e Juventude que tentam localizar parentes interessados na guarda da criança. Neste momento, a criança fica no abrigo. A criança fica abrigada até a família aceitar a reaproximação. Com as possibilidades esgotadas, a criança é cadastrada para adoção.

Para adotar, o pretendente precisa fazer um curso preparatório e passar por acompanhamento de assistente social e entrevistas, além de outros procedimentos. Sem este curso, o nome não vai para o cadastro nacional. A média de adoção é no máximo um ano e meio, dependendo dos trâmites da Justiça.

Grupos

A presidente da AleGrAA e do Alegria, grupos de apoio à adoção em São José e Jacareí, Sandra Cristina dos Santos, 53 anos, explica que os encontros acontecem mensalmente e são formados por 40 pessoas cada. O grupo é formado para pessoas que são simpatizantes e de pessoas que continuam contribuindo após o processo.

"São pessoas que estão com a possibilidade de adoção e outras que querem colaborar com os testemunhos. Lá, as pessoas podem participar de cursos, ouvirem relatos de quem já adotou. É uma ajuda e um estímulo para os pretendentes".

Sandra também é um exemplo de amor e adoção. Ela adotou três crianças: um menino agora com dez anos (chegou com um dia), outro menino de 15 anos (chegou com 12 anos) e outra agora de três anos (chegou aos cinco meses). "Tenho as três fases de idade na minha casa. Tomei a decisão porque não pude ter os meus naturais. A primeira opção que passou foi a adoção. Até sugeriram uma inseminação, mas preferi pela adoção. Tive vários abortos".

"É inexplicável o primeiro contato. O fórum te liga e falam que chegou a minha vez. De momento eu já aceitei e depois e dois dias eu fui buscar. É uma choradeira", conta emocionada.
Sandra diz que optou também pela adoção tardia e fala sobre o processo de adoção dentro de casa. "A adoção não é mercadoria. O menino de 12 anos tinha uma mãe drogada, os avós não aceitaram. foi pouco tempo que ele conviveu com os avós. Com nove anos, o Conselho Tutelar ­­o tirou da mãe e ele ficou três anos abrigado, até 12 anos. Se eu não tivesse buscado, não sei se outra família teria feito. A irmã também foi no mesmo processo e fiz questão de adotar os irmãos biológicos".

Para ela, não existe 'tabu' em falar sobre adoção dentro de casa. Sandra sempre enfrentou de forma tranquila. "Sempre fui conversando com meus filhos e dizendo que era meu 'filho do coração, nunca escondi de ninguém para que ele mesmo não fosse tratado diferente. Não minto para ninguém. Conto para estimular a adoção. Eles não têm restrição, é um assunto normal para eles", explica.

Com a experiência e o envolvimento com a adoção, ela afirma que pretende expandir os conhecimentos e levar os temas para outras pessoas. "Tenho um projeto para ser desenvolvido em faculdade e em grupos de psicologia, para que os profissionais aceitem essas crianças normalmente. Não tem nenhuma diferença e o amor é da mesma forma", ressalta.

"O mais velho veio com todo o trauma. Ele não tinha regras e chegou a viver na rua. Ele entrou na escola aos nove anos e tinha muito atraso. Hoje, o avanço é enorme. Ele já se recuperou muito. Desde o dia que o juiz assinou o papel ele começou a me chamar de mãe. Foi uma emoção".

Tempo

A presidente dos grupos de incentivo da adoção fala sobre o limite para adoção. "Existe uma lei que limita a adoção em até dois anos. Mas, infelizmente, nos deparamos com situações diferentes. A criança pode ficar no abrigo até os 18 anos e ir em busca do seu rumo".

Sobre a morosidade no processo, Sandra afirma que algumas burocracias são necessárias e que a maioria dos pais limita o perfil das crianças. "O processo é assim: a pessoa resolve adotar e vai à Comarca da Vara da Infância, em sua cidade. Conversa com a assistente social e faz as entrevistas iniciais e, posteriormente, você assina uma ficha com as restrições ou não na adoção. Com esse perfil é que a criança pode ser localizada. Infelizmente, os pais ainda ficam muito em dúvida com as citações no cadastro, por exemplo, uma criança com deficiência. Chega na hora de preencher, alguns pais ficam inseguros e acabam restringindo. Há casos em que os pais fazem muitas restrições e assim os pais vão ficar muito tempo na fila, por conta das exigências".

A presidente da Comissão de Direito da Família da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São José, Dra. Maritza Franklin Mendes de Andrade, diz que há uma demora para adoção decorrente das restrições dos pretendentes. "Há uma morosidade. O objetivo é evitar fraudes neste processo. O sistema não é um dos mais evoluídos. Há uma amiga que ficou cinco anos na fila, pois ela queria uma recém-nascida. Por isso, depende do que você coloca na ficha, dependendo dos critérios, o que fica mais difícil".

O advogado Luiz Fernando Pereira, especialista em adoção, afirma que infelizmente já acompanhou alguns casos em que há rejeições. "Infelizmente, por aspectos sociais as rejeições podem ocorrer, precisamente, quando inexiste adaptação das crianças adotadas", diz.

Pereira aponta que o processo de adoção pode ser “aperfeiçoado”. "Entendo que o processo de adoção, apesar de rigoroso, como no caso de adoção internacional, é integro no tocante à normatização. Temos a Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Código Civil de 2002 como instrumentos jurídicos que disciplinam a adoção. Creio que deveria haver uma alteração na lei em relação ao aspecto previdenciário no tocante à licença e salário maternidade de forma igualitária", acrescenta.

Processo

O CNJ (Conselho Nacional da Justiça) classificou São José dos Campos como a segunda cidade no Brasil como uma das mais céleres em adoção. O Juiz de Direito da Vara da Infância e Juventude de São José dos Campos, Marco César Vasconcelos e Souza, relata que São José dos Campos não apresenta características de pobreza extrema e as principais causas das adoções são em relação às mães que entregam os filhos ainda na maternidade.

"As mães percebem que não têm condições de criarem e entregam os filhos ainda na maternidade. Neste caso, a adoção acontece de forma mais rápida, após o processo investigatório com parentes".
Na Vara da Infância e Juventude de São José, foram observados casos de mães com problemas psiquiátricos, que em algumas circunstâncias são associadas à álcool e drogas. A cidade conta atualmente com 400 pretendentes na fila de adoção. Segundo Souza, as preferências por crianças claras está diminuindo nos últimos anos. "Vem diminuindo de ano a ano. O que ainda não diminuiu foi a preferência por crianças mais novas, de 0 a quatro anos. Ainda existe esta preferência. Já, infelizmente, quando a criança passa dos seis anos de idade, a adoção é difícil e acima dos doze anos fica praticamente impossível", destaca. "Os doze primeiros casais da fila de adoção só querem crianças brancas. Ou seja, se aparecer uma criança negra, a adoção será para o 13º pretendente", conta.

Desde 2004, 14 anos à frente da Vara da Infância e Juventude, o juiz afirma que para ele o mais gratificante é quando a criança ganha uma família. "Colocar uma criança em uma nova família é gratificante. Retirar de uma família não é gratificante", completa.

Pinda

Em Pindamonhangaba, um projeto chamado 'Família Hospedeira' é desenvolvido desde 2008, quando o juiz Alessandro de Souza Lima, na época à frente da Vara da Infância e Juventude da cidade, decidiu por implantar um projeto inovador e que atualmente é destaque em todo o país. O 'Família Hospedeira' possibilita que os moradores de Pinda sejam cadastrados para a retirada temporária das crianças e adolescente nos abrigos para participarem de eventos esportivos, comemorativos, aniversário, Natal, Réveillon, Páscoa, fins de semana, entre outras. Podem participar pessoas acima de 21 anos e crianças acima de cinco anos.

Em justificativa, o projeto quer estimular que os moradores de Pinda possam ajudar, voluntariamente, na criação e educação de crianças e adolescentes que estão abrigados, sem a possibilidade de reintegração familiar ou adoção. "O estreitamento da relação entre o menor e família hospedeira pode evoluir para o pedido de guarda ou adoção, o que seria ótimo; mas, quanto menos, se a família se dispuser, por exemplo, a custear os estudos do abrigado, já seria de inestimável valia. De qualquer forma, o simples fato de dedicar carinho e atenção ao menor, que nada possui, já contribuirá -e muito- para sua formação moral", completa trecho da justificativa do juiz.

Atualmente, o projeto está em vigor em diversas comarcas do Estado de São Paulo e em outros Estados como, por exemplo, Bahia, Santa Catarina e outros.

Original disponível em: http://www.meon.com.br/noticias/regiao/em-sao-jose-cerca-de-400-pessoas-aguardam-na-fila-de-adocao

Reproduzido por: Lucas H.

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